
6.11.09
Götterdämmerung no S. Carlos - breves notas
De rajada que não quero perder muito tempo: esta produção teve uma cantora razoável em Brünnhilde, Susan Bullock, com um timbre algo feio no registo agudo, um vibrato agressivo nas notas em fortíssimo mas com bom sentido da frase e um Siegfried boçal e grosseiro em Stefan Vinke que, apesar de tudo, conseguiu gritar as notas do papel, ao contrário do que se passou na jornada anterior. O resto foi desinteressante, entre o mediano (por ex.: algumas vozes solistas) e o horrível (por ex.: o coro e outras vozes solistas), e não vale a pena destacar nada…
Graham Vick quer apenas destruir as ideias de Wagner, incapaz de clareza, de clarividência, pondo os personagens a actuar contra a natureza do texto e do seu devir trágico. A Gutrune submissa e inerte transformada numa assassina. O representante do eterno, mesquinho e sempre vivo mal, Alberich, vive agora decadente na senilidade (a mesma senilidade que é obsessão de Vick) é o chamado envelhecimento a velocidade supersónica, ainda na jornada anterior Alberich andava aos pulos, viçoso como uma alface na caverna de Fafner. As observadoras Normas, desprovidas para sempre de poder, preparam bombas no S. Carlos, o que até não seria despropositado. Motoqueiros em ridículas scooters eléctricas são tudo... menos convincentes. A nobre Brünhilde é bombista. O Reno, outro personagem mágico, deixa de existir transformado numa campa infecta. Só esta última questão seria suficiente para quebrar a ideia fecunda do cosmos que Wagner preparou durante 15 horas de música para o apocalipse (quase) final: nos ares refulge o fogo que consome os céus, em oposição às águas do Reno transbordando das margens e que invadem, purificadoras, as terras de Worms...
A ideia do totalitarismo presente na corte de Gunther é interessante mas banal. Os corvos de Wotan, interessante e bela ideia (pensei ao vê-los surgir), é assassinada barbaramente pelos trejeitos a que os desgraçados dos bailarinos foram obrigados pelo "coreógrafo", mais pareciam uns pardalecos tontos uma espécie de gatos-pingados esbracejantes do que os nobres observadores de Wotan, olhos do mais presente dos ausentes, olhos de Wagner afinal. Outra nota saída do bordel do "coreógafo" Ron Howell, citado universalmente pela crítica internacional como um coreógrafo sem ideias e que vive à sombra artística de Graham Vick, é a "dança" das ondinas. Confundir sedução e erotismo com aquilo é o mesmo que chamar de meretrizes a todas as mulheres...
Foi dito que Vick fervilha de ideias, que é um mágico do teatro. Eu pergunto-me: onde estão as ideias de Vick que sejam fecundas? Encontro apenas meros actos gratuitos, sem sentido, sem fluxo, esparsas provocações: um par a dançar danças de salão ao tema da redenção que encerra o Crepúsculo, banalidade que representa o vazio, banalidade pessimista em oposição ao pessimismo mágico, sublime, trágico de uma visão de Wagner da filosofia de Schopenhauer... Fica uma pergunta: qual a lógica disto? Qual o sentido de um grupo de figurantes a correr e a pular durante os mais belos momentos musicais da orquestra? A única resposta é que o que sai do fosso é tão mau que é necessário fazer barulho com os pés dos figurante, distrair e encher o olho do público para que este não perceba a miserável direcção de Letonja e o som horrendo que vai escorrendo, qual fluxo lamacento, de um fosso sem coordenação, sem conjunto, sem propriedades acústicas, sem nexo. Abafar as notas erradas dos trompetes no juramento de Brünnhilde, esconder os graves a entrarem todos descoordenados porque os instrumentos não se conseguem ouvir no fosso, esconder a falta de precisão das entradas dos sopros, esconder os trombones fora de tom da banda de palco quais buzinas desafinadas, esconder o paupérrimo som das cordas, esconder a triste marcha fúnebre, sem pathos, sem impacto, sem chama, mortiça, esconder a visão míope do maestro que não tem qualquer noção do conjunto wagneriano e dirige compasso a compasso, nota a nota, sem sublinhar os motivos condutores, sem construir uma linguagem estética, a medo, é que, infelizmente, não é possível e, quando chegamos ao final, suspiramos de alívio que a tortura acabou ao som de um insuportável e infernal lá bemol (?) agudo de primeiros e segundos (?) violinos, a imagem do sofrimento que termina para músicos e mim próprio mas fica a ecoar como um bicho que se nos entranhou no cérebro e nos causa uma enxaqueca até o dia seguinte. Quando o personagem principal é a orquestra, Vick dixit, fazer Wagner sem orquestra é um absurdo, e como tal não pode existir Wagner. Qualquer crítica a um Götterdämmerung que não é de Wagner mas de Vick é quase um desperdício de tempo e de palavras.
Mas Vick não tem uma única ideia interessante? Claro que tem, e com isto encerro este raciocínio rápido sobre esta produção: tapar o teatro por dentro com painéis plásticos de um cinzento "cor de burro quando foge" é uma boa ideia, o Teatro de S. Carlos está na miséria, miséria artística, miséria musical, miséria no canto, miséria no número de produções e miséria nos números com que nos querem enganar, o cinzento é a cor da lama pútrida da poluição, daquele cinzento nada vive, não é fecundo. O palco virado ao contrário (no lugar da plateia habitual), ideia estimulante pela novidade a princípio, já parece um vício: o vício da destruição do teatro mágico de Wagner tendo como brinde um fosso sem comunicação interna, plano e de tecto baixo, sem espaço para a orquestra de Wagner reduzida em 20 unidades sobre o pretendido pelo compositor. Trocando distância e sonho pelo concreto materialismo brechtiano do teatro a ser feito à nossa frente, encontramos apenas mais um estereótipo de Vick. Uma encenação sem hermenêutica, um vazio de lugares comuns materialistas, um pessimismo do concreto, de pacotilha, um Wagner esquecido. Esgotada a ideia transforma-se numa escravatura. Fica a única ideia genial de Vick, colocar uma escada em cima da orquestra com o maestro bem debaixo da mesma, é óptimo para a comunicação… parece. Esta escada revela o lugar que Vick tem na sua escala para a orquestra de Wagner. Tem a vantagem de colocar a OSP e Letonja no seu verdadeiro lugar: o vão de escada.
Etiquetas: Crítica de Ópera, Götterdämmerung, Letonja, S. Carlos, Vick, Wagner
23.7.09
Entrevista a Alessis Gregory
Foi com prazer que entrevistei o homem por detrás do concurso internacional de piano que oferece o maior valor financeiro e que tanto prestígio tem obtido desde o ano da sua fundação, 2000.

A edição deste ano decorre na Fundação Gulbenkian e termina Sábado no centro Olga Cadaval de Sintra para a final com orquestra. Sexta Feira, na Gulbenkian decorrem os recitais com os finalistas.
Alessis Gregory explica como funciona um concurso de rosto humano onde os jovens são tratados como artistas e não como máquinas.

Fica um testemunho e um prazer de encontrar este senhor nascido em 1936 na Suiça, de origens russas e que partiu para os Estados Unidos em 1939 onde fez sucesso como editor e especialista em arte.
Nota: A entrevista é em inglês.
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19.4.09
Parabéns a Mário Vieira de Carvalho Uma carta recebida por leitor identificado!
Sr. Crítico dos Crítico, condeno o seu blogue por dizer mal do sr. professor doutor académico Mário de Veira de Carvalho e venho escrever-lhe pedindo que coloque no seu blogue este email.
"assinado e tal e tal"
A propósito desta Agrippina no S. Carlos endereço daqui os meus cumprimentos a Mário Vieira de Carvalho, pelo contributo do ex-secretário de Estado da cultura na actual situação do Teatro Nacional de S. Carlos pondo na rua um director pouco presente e pouco competente, pouco esforçado e mau profissional: Paolo Pinamoni, substituindo-o por esta luminária da cultura europeia que é Christoph Dammann.
Mário Vieira de Carvalho depois da obra que fez, amplamente reconhecida, ainda se dá ao luxo, incomoda-se e dá-se à canseira de botar bitaites e recados e de andar a escrever nos jornais e mandar emails. É preciso ter coragem, força de carácter, perseverança e energia pela causa pública. É obra!
Entretanto Mário Vieira de Carvalho desdobra-se e faz queixas ao provedar da rádio pública queixando-se do actual director adjunto da Antena 2 na perspectiva de que uma rádio deve ser um repositório musicológico-hermenêutico. Gostava imenso de ter o privilégio de poder escutar uma rádio dirigida pelo senhor hermenêutica em pessoa. Porque não convidá-lo a dirigir a Antena 2 durante um mês? Pela experiência do S. Carlos creio que seria outra obra para ficar no orgulho nacional.
Finalmente deploro a actual direcção da rádio pública: multiplicar as transmissões em directo? Apoiar os artistas e músicos portugueses em concertos e mais concertos? Subir as audiências no primeiro trimestre de 2009 para o maior valor de sempre da rádio clássica? Horror dos horrores isso é popularizar a rádio, banalizá-la, destruir a sua herança... O ideal era ter uma rádio académica-musicológico-hermenêutica em que todo o dia se enaltecessem as virtudes musicológicas de Mário Vieira de Carvalho e os méritos da demissão de Paolo Pinamonti e as excelsas virtudes de Christophe Dammann à frente do Teatro de S. Carlos. Proponho mesmo que João Almeida seja demitido e a Antena 2 se passe a chamar "Rádio Hermenêutica, a verdadeira rádio académico-musicológica".
A Mário Vieira de Carvalho, a esse especialista em rádio, a esse inato director de teatros de ópera, a esse polemista excelso, ficam os meus sinceros parabéns!
Etiquetas: Antena 2, Ironias, Sr. Hermenêutica, Vieira de Carvalho
Alvíssaras
Existe? Qual o paradeiro? Quem é? Qual o currículo? Qual a relevância? Terá passado à clandestinidade?
O mesmo se poderia dizer do ministro Pinto Ribeiro [ministro nome trocado] se não andasse de coche, único meio de transporte mais ou menos cultural que se lhe conhece...
Etiquetas: António Pinto Ribeiro, Cultura, Vácuo na Cultura
Da qualidade e competência da justiça portuguesa
Excerto de acordão judicial!
Comentários para quê? Uma redacção brilhante e uma conclusão surpreendente!
18.4.09
A catástrofe
Christoph Dammann surpreende pela negativa em cada produção que realiza: pior do que a Salomé parecia impossível mas consegue agora, num esforço denodado de asneira, cair ainda mais na produção seguinte. Se a cenografia estática escapa, na sua banalidade estética, tudo o resto é um gigantesco erro de casting. Pouco mais há a dizer: se a Salomé era bola preta, esta Agrippina é a negação da música de Handel, é a negação da música e do canto. Espectáculo a evitar a todo o custo. Pedir dinheiro por bilhetes num espectáculo destes é enganar o público. É uma vergonha uma instituição pública cobrar entradas inacreditavelmente caríssimas por uma coisa tão rasca. Se Jorge Calado pedia a polícia para a Solomé, na última edição do Expresso, eu peço a ASAE para esta Agrippina. Nem me apetece fazer uma crítica detalhada deste lixo vindo de "Colónia Agrippina"...
O público ainda bate umas palmas envergonhadas e aparecem alguns bus aqui e ali. Por muito menos pateava-se forte e feio há alguns anos, é minha opinião que um público que ainda bate algumas palmas a coisas destas é profundamente complacente, ignorante, pouco exigente e analfabeto. É ser-se enganado e ainda agradecer no fim, de chapéu na mão, enquanto o sr. Dammann bebe champanhe, brinda e dá gargalhadas com os amigalhaços no intervalo, dando aos provincianos dos portugas as piores coisas que se podem imaginar com nepotismo à mistura (com o evidente exemplo de Chesey Schill), é obra! É tempo de dizer basta a este estado de coisas. Infelizmente temos um ministro da cultura absolutamente inútil e que parece não fazer a menor ideia do que se passa no teatro público que mais dinheiro gasta aos contribuintes portugueses, já é mais que tempo para demissão com justa causa.
Etiquetas: Christoph Dammann, Crítica de Ópera, S. Carlos
30.3.09
Paradoxos
Paul McCreesh gravou um disco com música de Handel para a DG com Rolando Villazón, parece que nenhum deles foi preso, pelo menos até agora...
Etiquetas: Crítica de discos, Ironias
28.3.09
Todo ele um fórum - todo ele um penteado
Que grande ministro, o deste penteado!
Que bela política, esta franja!
Etiquetas: António Pinto Ribeiro, Classe Política, Crítica, Política
Poesia de Tomás de Oliveira Marques
Por tua culpa
Tomo a música
No espírito em sangue
E voo prostrado.
................................................................................................................
Por tua culpa
Dói a valer
O que é secreto
Na voz do Silêncio
Ao ser cantado.
Por tua culpa
A noite é mais funda
No tormento que faz
Perder o cuidado.
Por tua culpa
Olho para trás
Em busca das chaves
Do tempo perdido
(E não as encontro),
Sei-me cercado.
Por tua culpa
Não abro a boca
Com medo de calar
O Silêncio clamado.
Por tua culpa,
Se fundo cantas
As dores do mundo,
Da turba surda
Sinto-me culpado.
Por tua culpa
O facies doloroso
Da música profunda
É obnubilado.
Por tua culpa
Pela voz primordial
Como o pão e o vinho
E Sede de Infinito
Arfo acossado.
Por tua culpa
A Terra agora
Já não é redonda
Nem roda constante,
Dilui-se densa
Do coração humano
Ao firmamento,
Onde canta o indizível
Crucificado.
Tomás de Oliveira Marques
Nota: Dedicado a Maria Cristina Kiehr, pelo seu admirável e dionisíaco percurso no mundo da Música Antiga e, em particular, pela poderosa abordagem à ária “Scherza infida”, de Handel, lado a lado com o Divino Sospiro, dirigido por Chiara Banchini, no CCB/Lisboa, em 07/03/2009.
Etiquetas: Poesia, Tomás de Oliveira Marques
27.3.09
Resumo da Salomé no S. Carlos
Mas a cereja no topo do bolo e o motor de toda a acção é o S. João Baptista que rejeita Salomé porque é pederasta e anda atrás do pagem...
Num exercício de (pequena) imaginação pense-se no mesmo feito com Maomé ou com o genro Ali...
É o que eu chamo de encenação panfletária homossexual básica na antítese do texto genial de Oscar Wilde, que prova à saciedade que se pode ser homossexual e ser um génio. Oscar Wilde escreve uma obra em que todas as subtilezas, todas as ambiguidades têm lugar, dando lugar à elegância e à estética: como de outra forma se escreveria o horror da necrofilia senão em Salomé? Sem se ser básico e primário? Apenas Oscar Wilde para o fazer.
O encenador tem um padrão: todas as obras, todos os textos que por acaso lhe passem pelo estreito passam a ser motivo para panfleto. Numa visão deste tipo todo o homem é homossexual, desde D. Giovanni até Casanova, passando por Jesus Cristo, S. João Baptista, o toureiro da Carmen, Otello e Mefistófles, todos querem abafar a palhinha. Nas mulheres as coisas variam mas não andam longe. O encenador olha para a obra não numa perspectiva histórica, intelectual, ou estética, a música não interessa para nada, não interessa se a música de Jochanaan é majestosa e digna (e até intolerante) e a de Salomé é cromática e erótica, sedutora e torsa. O que interessa é servir a ideia pré-concebida do encenador de enfiar o pederasta algures e da vítima abusada alhures. As interpretações são múltiplas, não sou psicanalista, mas ao ver as encenações destes tipos (no sentido tipológico) acho que se podem tirar conclusões bem interessantes sobre os traumas dos encenadores, que tantas dores nos dão ao imolarem no altar dos seus fantasmas as obras primas do génio humano.
Retirando a camada erótica do feminino, eliminando a dança dos sete véus, colocando a carga negativa em Herodes, um simples pedófilo, fazendo de Jochanaan um vulgar pederasta, arranjando uma dupla muda de Salomé (solução banal e recorrente), que faz de conta que é uma criança, a encenadora destrói, do princípio ao fim desta Salomé, uma obra notável, que tinha tudo lá dentro sem precisar do canibalismo pseudo subversivo, deselegante, espelho de uma alma sem cor, sem imaginação no seu excesso panfletário, desta mulher-homem cinzenta e seca, óbvia, primária e transparente que dá pelo nome de Gruber. A encenação não dá lugar à subtileza e à ambiguidade, é um nojo.
Classificação: uma merda para tomates podres e que valeu bem a pateada e os "bus" que brindaram a encenadora quando veio ao palco. Uma das piores encenações que tenho visto no S. Carlos. Por mim fiquei calado e descontente, gélido: é que aquela porcaria já nem sequer serve para incomodar...
Sobre a encenação da Salomé devo acrescentar que o tomate podre se estende ao director artístico Christoph Dammann e, sobretudo, ao hermenêuta que o meteu no S. Carlos: para mim o pior secretário de Estado da cultura que ocupou o lugar desde o 25 de Abril de 1974.
Continua com aspectos musicais.
Etiquetas: Crítica de Ópera, S. Carlos
16.3.09
E Deus Criou o Mundo
Louvado seja Deus pela sua extraordinária Criação.
P.S. Criação de Haydn a 13 de Marco, Sexta Feira, Orquestra de Câmara da Europa - 19, coro Gulbenkian (brilhantemente preparado) - 18, maestro Douglas Boyde - 19. Cantores: Sarah Tynan (soprano) - 12, Ed Lyon (tenor) - 18, Darren Jeffrey (baixo) - 19 apesar do grão.
Etiquetas: Crítica, Crítica de Concertos, Gulbenkian
13.3.09
Orquestra de Câmara da Europa - A desilusão
A residência da Orquestra de Câmara da Europa na Gulbenkian pauta-se por uma profunda desilusão até este momento.
É uma orquestra de excelência com músicos extraordinários e isso ainda se nota.
Os problemas foram:
a) no primeiro concerto um maestro superficial e banalíssimo na terceira de Brahms e uma solista de técnica irrepreensível mas robotizada e sem nuance, apenas com um som gordo e pesado que encheu a sala da Gulbenkian do princípio ao fim. Como o concerto de Sibelius não foi concebido para o circo e a sinfonia de Brahms não foi construída para ser tocada a despachar o concerto foi uma desilusão. Ficou a amarga impressão da destruição da ideia musical do terceiro andamento, ataques descordenados e um final verdadeiramente catastrófico.
b) No segundo concerto o maestro Hengelbrock, que esquizofrenicamente a Gulbenkian crisma com e sem "H" no seu site e programa, apresentou um programa esquizofrénico, provavelmente fruto da mesma epidemia que afectou o seu "H". Uma troca de programa trouxe a sinfonia 104 de Haydn para a primeira parte destruindo a lógica do programa. Umas árias e aberturas desgarradas de diversos compositores fecharam o concerto com uma cantora demasiadamente jovem e medíocre para o repertório, com voz de apito nos agudos e incapaz de dar densidade musical aos breves minutos de cada ária. Entre as notas erradas da cantora e as árias escolhidas sem qualquer critério sobrou uma sinfonia de Haydn, tocada com energia e sentido de humor, e aberturas de Rossini, tocadas com verve. Sobraram também as excelentes prestações da orquestra em Haydn. Um excelente maestro, uma bela orquestra mas uma tremenda desilusão ver um agrupamento destes a tocar as arietas da segunda parte...
Veremos hoje, com a Criação de Haydn, se o saldo ainda pode chegar ao positivo. Eu tenho esperança: é numa obra deste fôlego que espero ver uma orquestra como esta bilhar. Infelizmente o coro Gulbenkian pode estragar tudo com os gritos desgrenahdos que têm pautado as suas últimas actuações. Apesar do coro espero, sinceramente, que este concerto de hoje seja um acontecimento...
Etiquetas: Crítica, Crítica de Concertos
Casamento gay à vista
Estou interessado em saber qual a posição de Portas face ao casamento homossexual, tema caro a Sócrates e que será um dos cavalos de batalha das próximas eleições. Será que temos o casamento gay à vista após as eleições e com o voto do CDS? Será que os eleitores centristas, muito concervadore por tradição, vão dar carta branca a Portas para viabilizar o casamento gay de Sócrates depois deste ter liberalizado o aborto e ainda o pagar na totalidade pelo Sistema Nacional de Saúde? Ou será que o CDS está condenado a ser um partido em vias de extinção e dar os poucos votos de que dispõe ao PSD?
Manuela Ferreira Leite ri-se e agradece.
Etiquetas: Classe Política, José Sócrates, Política
7.3.09
Ainda o Freeport
A história da fábrica de pneus da Firestone no lugar do Freeport tem servido para justificar o crime ambiental.
Existia em Alcochete, junto ao Tejo, uma fábrica desactivada e degradada o que daria uma excelente oportunidade para reabilitar uma zona ribeirinha junto ao estuário do Tejo e devolver a mesma à Natureza, tão massacrada naquela zona.
A fábrica estava numa zona sensível e o facto de existir a sua ruína não justifica de todo uma maior carga e uma maior destruição da zona ribeirinha. É precisamente esse um dos argumentos do governo actual para dizer que tudo está bem naquele monstro. Para mim é exactamente um argumento contra o Freeport, aquele lugar é tudo menos indicado para aquele modelo pacóvio de desenvolvimento e que cheira à légua a crime ambiental, senão a outros... A existir uma fábrica a funcionar ainda haveria alguns motivos para a manter, no estado destruído em que estava nada devia impedir a extensão do parque natural.
O ministro do ambiente em Portugal, que devia chamar-se ministro dos "PINS e ambiente para disfarçar", serve, e tem servido desde Sócrates, para dar cobertura aos maiores crimes com a capa dos estudos de impacto ambiental encomendados para servir os melhores interesses. Perguntei num almoço de amigos se conheciam o nome de Nunes Correia, a resposta foi clara: é uma velho alfaiate na baixa pombalina, na esquina da rua Augusta com a de Santa Justa, e que está actualmente a praticar preços incríveis. Toda a gente fala do "Nunes Correa"... da baixa!
Etiquetas: Classe Política, Fretes, José Sócrates
Vigarices
O leitor, como dono da Caixa Geral de Depósitos, como se sente face ao mesmo comportamento da actual gestão de Faria de Oliveira?
Quantos mais casos haverá na Caixa?
Qual a real situação da Caixa? Isto depois de dezenas de anos de gestões de criaturas, às quais não confiaria a minha carteira, sem grande currículo mas muitos amigalhaços na política. A não ser que ter andado a roçar o traseiro pelo parlamento, pelas secretarias de Estado e alguns ministérios seja qualificação para ser gestor de um grande banco.
Etiquetas: Classe Política
3.3.09
Apelo
Hoje repetem-se os músicos mas muda o programa. Quarteto com piano nº2 de Mozart, Septeto opus 20 de Beethoven reduzido a trio com piano, clarinete e violoncelo pelo próprio Beethoven (opus 38), o adagio para violino, clarinete e piano de Alban Berg e ainda a deliciosa História do Soldado de Stravinsky em trio com clarinete, violino e piano.
Um programa de alto nível, intérpretes de eleição e a sala vazia. Um verdadeiro escândalo. Apelo a quem me lê aqui que dê um salto à Gulbenkian hoje ao fim da tarde para um programa de que não se vão esquecer...
Etiquetas: Antevisões, Crítica de Concertos
2.3.09
O Pinóquio e Espinho
Apesar de não simpatizar com Luís Filipe Menezes noto uma profunda diferença de trabalho entre o PS de Espinho e o PSD de Gaia.
Etiquetas: José Sócrates
Concerto normal
Orquestra Nacional do Porto com Olari Elts direcção musical, Håkan Hardenberger trompete.
Programa
I. Johannes Brahms Abertura Trágica
Rolf Martinsson Concerto para trompete n.º 1, A ponte
II. Dmitri Shostakovitch Sinfonia n.º 6
Devo dizer que o concerto para trompete não me estimulou muito, o extraordinário virtuosismo de Hardenberger e a orquestra Nacional do Porto corresponderam à chamada. Já a composição me pareceu repetitiva, sem grande imaginação, abusando das mesmas figuras rítmicas, piscando o olho ao público e cheia de barulho. Talvez a secção central, lenta e melancólica, escape a este facilitismo. Enfim, impressionou-me o trompetista pelo seu extraordinário virtuosismo.
Foi no resto do concerto, com obras de resistência do repertório, que a Orquestra Nacioal do Porto mais brilhou. Gostaria de ter escutado uma sinfonia posterior de Shostakovitch mas a sexta serviu bem para se apreciar a orquestra. Em formação "pesada" sinfónica, com as cordas completas, deixei de notar a crónica carência de som dos violoncelos e das violas que tenho sentido na sala Suggia. A orquestra demonstrou uma perfeita maturidade, densidade sonora, articulação entre os naipes, qualidade dos solistas. A orquestra prova repetidamente, pelo que eu tenho ouvido, que é a única orquestra sinfónica portuguesa - não incluo aqui a Gulbenkian que se afirma no seu próprio currículo como uma orquestra de formação variável que pode, reforçada, abarcar algum repertório sinfónico.
O maestro Olari Elts, jovem e concentrado, mostrou um enorme entusiasmo e energia, embora algumas vezes me tenha deixado a sensação de ainda estar um pouco preso à leitura da partitura, e tenha dada algumas entradas antecipadamente, o que poderia ter causado estragos que acabaram por não surgir devido à concentração dos músicos. Fez uma leitura interessante em Brahms e Shostakovitch.
Recomendo a ONP como um valor seguro que proporciona concertos de qualidade ao seu público.
Reparei entretanto que na Casa da Música Shostakovitch se escreve com "C" e que o palco é largo mas muito pouco profundo. Isto separa os naipes da orquestra, creio que seria necessária a existência de quatro degraus o que permitiria aproximar as trompas dos trompetes e trombones ficando a percussão acima de toda a orquestra. Mas é impossível colocar quatro degraus por falta de espaço. Assim a orquestra fica espalmada: notei desacertos entre trompas e trombones, por falta de comunicação separadas por clarinetes e fagotes, as trompas do lado esquerdo e os restantes metais do lado direito da percussão. A falta de profundidade do palco é um gravíssimo erro de concepção que ainda não vi discutido na imprensa ou pelos críticos. Fala-se da ausência de um possível fosso, que a existir seria um profundo disparate num auditório para música.
Um concerto normal que mostra uma orquestra de bom nível. Como eu escrevi acima: a Orquestra Nacional do Porto é a única orquestra sinfónica portuguesa.
P.S. (Secção jocosa mas...) Reparei nos sapatos dos músicos, muitos ostentam os apropriados sapatos de polimento, numa percentagem superior à média nacional, as casacas pareceram engomadas e as camisas limpas. Estão ainda longe do ideal mas melhor do que a Gulbenkian e a léguas de outras orquestras que por aí vão actuando. Nos concertos da Gulbenkian reparo também no moda feminina das senhoras de calça preta e top, no último (27 de Fevereiro) havia um grupo de quatro violinistas, as últimas dos primeiros violinos, que se apresentavam nestes preparos de fardamento que começa a ser ridículo. Porquê ceder a este facilitismo e a esta uniformidade acéfala na indumentária? Top preto e calça preta não é compatível com casaca masculina nem é roupa de cerimónia. Nem para as criadas seria aceite...
Etiquetas: Crítica, Crítica de Concertos, ONP
28.2.09
Poesia de Tomás de Oliveira Marques
(4 esquissos sobre masculino/feminino/angelogonia)
I.
Do homem e da mulher
Das diferenças a haver
O Diabo foi-se, já não se vem:
Seja o que Deus quiser.
II.
O que é o amor do homem
Para a mulher e vice-versa?
Para ele, é passar a pata
Ao que nela há de longilíneo:
O tensor de fáscia lata.
Para ela, que continue
O parceiro sobretudo primata.
Assim é o amor prazenteiro.
III.
Da igualdade tomada in vitro
Na dicotomia homem/mulher
Para o Diabo é já igual ao litro:
Seja o que Deus quiser.
IV.
Busco a fêmea
Insinuante da promessa
Enquanto macho
Tíbio na efectivação.
Digam lá
Deste meu desígnio,
É frouxo ou ígneo? ,
E no que dá
O que é sabido
Carcomido
D’antemão.
Nota: na glosa do meu velho artigo sobre trovadores, datado de 1992, onde caracterizo a democracia como o péssimo convívio entre a fêmea insinuante da promessa e o macho tíbio da efectivação.
Tomás de Oliveira Marques

Etiquetas: Poesia, Tomás de Oliveira Marques
20.2.09
Poesia de Tomás de Oliveira Marques
(procriação e homofobia)
Risquemos então um fósforo
para se rever na História
homos e procriação:
Goebbels fez seis filhos
num buraco soterrado
com veneno os amou;
Michelangelo nem um só,
nem um doou à multidão.
Goebbels pariu Auschwitz
pela Besta fecundado;
Michelangelo a Sistina
David e a Pietà
em auto-superação.
Decididamente, sou
a favor da castração
do ego desabrido
que se multiplica malsão
e contra o casamento
do nazi danado
com um mestre da Criação.
Tomás de Oliveira Marques
Etiquetas: Poesia, Tomás de Oliveira Marques
19.2.09
Poesia de Tomás de Oliveira Marques III
(pão e circo)
Palhaço, o 1º Ministro?
Bem, a haver circo,
Então somos nós, “todos”,
Quem arma a tenda
Quem paga bilhete
Quem apupa entre palmas
Enfim, quem salta trampolins
Ao sabor do chicote
(sabem de quem?)
Que vem de antanho
E só há-de parar talvez
Daqui a mil anos.
P.S.: com que então palhaço!
o chip para os carros
pode ser tudo
menos uma palhaçada.
Tomás de Oliveira Marques
Etiquetas: Poesia, Tomás de Oliveira Marques
Câmaras
Entretanto o Costa de Lisboa, irmão do outro da SIC, é a maior fraude política de todos os tempos, lixo, lixo e mais lixo, jardins nos últimos estádios da degradação, crateras em ruas de toda a cidade que ninguém tapa, insegurança, serviços ineficientes, total e absoluta ausência de política cultural, marasmo e mais marasmo, negociatas com os milhões de contentores enfiados no coração de Lisboa bloqueando o rio com o beneplácito to Zé e dos outros, negociatas do sempre-à-mão Zè (recordar sempre e sempre que bloqueou o túnel só para chatear) negociatas com os palácios para arrebanhar mais uns cobres não se sabe bem para quê, desculpas sobre as obras de onze anos do Metro para justificar o corte do Terreiro do Paço por mais quatro meses (anos). Afinal o homem não ganhou a Câmara por falta de comparência já há dois anos? Não tinha tido tempo para coordenar as obras do Terreiro do Paço com o final das obras do Metro?
Todos os meis amigos sabem do meu total desprezo por Santana Lopes como político, mas entre este espantalho político socialista e o menino guerreiro prefiro sem dúvida o último. É evidente que se Lisboa continuar assim e as obras se eternizarem, como é natural e óbvio que aconteça, a campanha de Santana será um passeio triunfal. Enganem-se os políticos à la Carrilho. De qualquer modo, por uma questão de princípio, nenhum destes dois políticos e seus respectivos partidos políticos vai ter o meu voto.
Etiquetas: Classe Política, Política
Pequena greve
Poucos dias depois este crítico voltava à acção para uma crítica a outro concerto, desta feita no grande auditório da Gulbenkian. A greve foi bem de curta duração... Faz lembrar as greves da fome do queijo limiano!
No que me diz respeito não me parecem repetíveis as críticas deste crítico-musicólogo. Considero irrepreensível o tratamento que a Gulbenkian dá aos críticos, a par da Casa da Música, bem distante da forma como, por exemplo, o CCB lida com a crítica, que entendo, na minha perspectiva, como displicente e desinteressada. O CCB, através do seu gabinete de Imprensa, dá quase a entender que não precisa de crítica para os seus concertos, sobretudo os que têm muito público à priori. Foi notório isso no último concerto de Maria João Pires, para não citar mais exemplos que vou coleccionando com esta instituição. É evidente que tratamentos díspares não motivam qualquer alteração de perspectiva crítica, pois o crítico, quando escreve ou discursa num meio de comunicação de massas, deve ser absolutamente imune às condições criadas e deve focar-se no lado artístico.
Segue o comunicado da Gulbenkian sobre o "caso" Manuel Pedro Ferreira, publicado no jornal "O Público" há dois dias:
Ao abrigo da Lei da Imprensa, vimos solicitar a publicação do esclarecimento que prestamos de seguida relativamente às afirmações de Manuel Pedro Ferreira no artigo Instrumento perfeito, ouvido em mono, publicadas na edição de [dia] 8 de Fevereiro último desse periódico.
1 - No artigo de Manuel Pedro Ferreira sobre o concerto da Orquestra de Filadélfia que decorreu no dia 4 do corrente mês, no Coliseu dos Recreios, publicado em 8 de Fevereiro, acusa-se a Fundação Calouste Gulbenkian de ter uma atitude displicente relativamente aos críticos de Música. Refere o autor do texto que “há trinta anos,
pelo menos, que a Fundação Gulbenkian reserva aos críticos as posições mais periféricas, como se não fossem agentes culturais, mas parasitas, cujo eco jornalístico é tão irrelevante que não merecem sequer ouvir em estéreo”.
2 - No caso do concerto em referência, foram oferecidos ao crítico dois bilhetes numa das filas centrais da sala, os quais correspondem ao escalão mais
elevado na tabela de preços do Ciclo Grandes Orquestras Mundiais (1.ª Plateia), por se considerar ser este um dos melhores sectores do Coliseu dos Recreios.
3 - Tem sido hábito da Fundação disponibilizar aos críticos de música bilhetes para os espectáculos por si organizados, nunca tendo, em mais de 50 anos de actividade, recebido qualquer comentário negativo acerca dos lugares destinados para o efeito.
Miguel Sobral Cid
Director adjunto
Serviço de Música da Fundação
Calouste Gulbenkian
12.2.09
O hermetismo
Estou convencido que um texto curto, de hermenêutica desconcertante e difusa, simples na mera aparência, chocante na abordagem, faz mais por um debate do que poses inflamadas e mangas arregaçadas em tonitruantes parangonas seguidas de longas perorações. A parábola é evidente, destina-se aos simples, o labirinto é complexo, é secundário, terciário, e por diante...
Mesmo que o autor tenha uma posição firme e pensada, assumida com a sua almofada. Mesmo que o autor seja apenas um primário sem sentido abstracto. Mesmo que os significantes não correspondam aos significados, o labirinto desconcertante do pensamento é a ssuprema forma de questionar, de destruir.
Por isso prefiro não clarificar, clarificar é destruir o edifício da abordagem analítica. É tornar primário aquilo que não o é. Viva o labirinto, o labirinto do complexo de culpa, o labirinto da verdade, o labirinto da mentira.
E ao Homem cabe substituir-se a um Deus que foi destruindo como rei da Criação!... Ser Supremo acima de todos, ao Homem tudo é permitido, só ele é sagrado, só ele é eterno. Face ao Homem tudo resta relativo e só Ele é absoluto, até mesmo na floresta esfíngica do labirinto do medo.
Etiquetas: Ironias
11.2.09
Os sapatos polidos da Orquestra de Filadélfia
Reparei que além de tocarem bem também têm brio na aparência e apresentam-se, não de sapatos miseráveis e mal limpos, mas todos os homens, sem uma única excepção, de sapatos de verniz e com a indumentária perfeita.
Realmente o brio de uma orquestra vê-se por pequenos detalhes que definem o gosto e a qualidade. Sente-se que o prazer de fazer música em conjunto começa pelo brio e orgulho na forma como representam a sua instituição.
Fica a dica para as nossas orquestras de maltrapilhos... Não há uma única em que os músicos se apresentem, todos, de forma correcta.
Para rematar: acho inacreditável a forma como a Gulbenkian, a nossa orquestra melhor paga, se apresenta em público. Como será possível terem brio na interpretação musical se nem sequer são capazes de ter brio nos sapatos? Sei que são aspectos acessórios, e fique claro que eu prefiro uma orquestra de remendões a tocar bem do que um grupo de peralvilhos a desafinar. O que é certo é que a imagem dada é de degradação e a imagem da Fundação Gulbenkian sai notoriamente prejudicada pela forma como os seus músicos representam em palco, perante o público, a sua casa.
Etiquetas: Crítica, Gulbenkian, Orquestra Gulbenkian
9.2.09
Poesia de Tomás de Oliveira Marques
(para a próxima legislatura)
I. “Que a Verdade não seja mentira”
Em prol do casamento
Entre almas (e corpos!) do mesmo sexo
Tomemos exemplar o caso
Da mentira e da verdade,
Lésbicas desde os primórdios,
Delas nem uma só ponta
De tédio a tolher a relação.
Animais milenares
Nos braços um do outro
Hão-de, desde já aposto,
Até ao final dos tempos
Dar-se terrivelmente bem.
Mentira e Verdade,
Com linhagem desmedida
Desde o Verbo até ao fim
Dos séculos e dos séculos. Ámen.
..............................................................................................................................
Verdade e Mentira,
Duas fêmeas insondáveis
Pela masculinidade
Do que as diferencia,
Tão difícil de dissecar,
À noite a porem à roda
A cabeça do filósofo
Sem deixarem de afiar
As facas da Teologia.
Mentira e Verdade,
Ambas fora do alcance
Da fina antropologia:
Frígidas no seio da Moral
Sensuais diante da Razão
Furtivas a qualquer medida,
Casadas havemos julgá-las
De facto, de corpo e alma,
Pela e para toda a vida.
II. “PSSU”
Pelo Santo Sexo Único
Deixemo-nos de vãs unções:
A dignidade, a haver,
Faz na mente o seu ninho
Ao sabor amargo dos tempos,
Não em vulvas, falos e c......
Deus não tem sexo
E o Diabo também não.
Era bom que Igreja, “Nobreza”
E Povo de vez deixassem
De colmatar a existência chata
Só com vulvas, falos e c......
Deixemos portanto em paz
Sem se querer ordenar
O Caos que jaz aos trambolhões:
Quando for grande hei-de deixar
Aos mortais conselhos isentos
De vulvas, falos e c......
III. “Marinheiro de mar alto”
Para se poder chegar
A salvo a porto livre
É preciso mesmo pagar
Depois um preço alto
A quem baixo alvitre.
IV. “Lavrador de lágrimas”
Lavrador de lágrimas
Perdidas no rosto
Da turba a sofrer,
Depois de bem secá-las
De enxada enxuta
Volta a casa o Poder.
V. “3 haiku de marcenaria”
Vai pró céu depois
De aplainar infernos
A Mão do Poder
***
É-se no Poder
Pagador de promessas
Para esquecer.
***
Quem se mete com
Quem não se deve meter,
Leva!... Se bater.
(por outras palavras)
Quem se mete com
Quem não se deve meter,
Está fodido.
VI. “3 ou 5 haikai em contínuo sobre Direitos”
O cidadão na posse
Dos seus plenos defeitos
Tem por norma exigir
Sem nada dar em troca
Tudo o que deseja.
Eis a pá do insano!
(Caro leitor)
Vê nesta parábola
A trama dos Direitos.
Ou então, se és cristão,
O Demo dos Direitos.
VII. “666”
É próprio da turba
Haja o que houver
Pedir sempre sangue.
Daí os cordeiros
Que não têm culpa
Alguma (ou terão?)
Serem os chamados
À faca no altar
Duro dos costumes.
VIII. “3 haikai em contínuo sobre o Poder”
A vida é o que dá
Pó do pó, isso mesmo,
Até deixar de haver
Ardor autofágico
Em nós, nas mil gavetas
Do armário do poder.
IX. “VINDE A MIM A INOCÊNCIA”
Esmaguei no outro dia
Entre os dedos uma formiga
Sem haver qualquer razão.
Depois, fui à loja da esquina
Fazer compras e encontrei-me
Só, reduzido a multidão.
É por estas e por outras
Que não espero mais de mim
Do que dos outros – uma desilusão!
(Atenção! O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente...
Que está cheio de si, até mais não.)
X. “2 haikai em contínuo sobreo o verbo crer”
O bisturi que trata
Na lógica do poder
Em sangue se retrata
A sós com o verbo crer.
XI. “Epílogo” (em grande, por terras de liliput)
Porventura mais
Do que verdade e mentira,
A Inocência e a Culpa,
Também lésbicas por natura,
Estão entre si ligadas
Por um elo indissolúvel,
De santa ignorância
Na perfídia do costume,
A tornar trágico
O riso escarninho
De quem bastardo se vê
Nas malhas da sua Cultura.
XII. “P.S.” (2 haiku post-scriptum)
Haja aquele
Que atire primeiro
A pedra cega
E possa ver-se
Diante do espelho
Nu, por inteiro.
Tomás de Oliveira Marques
Nota: A quem interessar, haikai e haiku são formas poéticas curtas, de factura japonesa, com o intuito de sugerir uma ideia, um facto, uma impressão fugitiva, de modo a provocar no leitor/auditor uma reflexão sobre o significado profundo das palavras no poema: no haiku, composto de 3 versos com 17 sílabas (em ordenação 5,7,5, na versão mais clássica); no haikai, composto de 2 versos com 7 sílabas, cada.
Como se pode verificar, esta minha abordagem aos haikai e haiku é, como não pode deixar de ser, substancialmente ocidentalizada e, porque não dizê-lo, abusivamente livre. Não deixa, no entanto, de fazer bem ao nosso espírito atordoado pelo ruído do presente, o qual não é nada comparado com o que há-de vir.
Etiquetas: Poesia, Tomás de Oliveira Marques
Os Coelhos
Etiquetas: Classe Política, José Sócrates
23.1.09
Tios e Sobrinhos
Qual será o coelho que vai sair da cartola de José [Sócrates] Sousa?
Prevejo uma medida surpreendente e inusitada para os próximos dias, é necessário distrair...
Estou cansado.
Etiquetas: Classe Política, José Sócrates, Política
21.1.09
Casamentos diversos
E divagando um pouco: talvez em 2013 a próxima bandeira seja o casamento civil entre seres humanos e animais, quem não sente ternura por um psicanalista, ou mesmo um pastor, que ama uma bela ovelha? Basta lembrar Woody Allen... Qual é o direito da nossa sociedade de impedir a felicidade de seres que se amam? Os animais são, dizem muitos dos seus defensores, melhores do que os humanos - talvez Schopenhauer concordasse. Porque não a oficialização dos casamentos inter-espécie? E depois, como consequência lógica, a poligamia inter-espécie consagrada em lei?
Depois disso resta legalizar apenas a união de facto (por etapas primeiro, que o assunto é sensível) entre humanos e seres inanimados. Quem não conhece o macho lusitano apaixonado pelo seu automóvel? Casamentos entre humanos e automóveis seriam uma experiência que, a resultar, seria estendida a obras de arte, bonecas e bonecos insufláveis, e outros artefactos que só a imaginação poderá conceber...
Enfim, quem é a sociedade moralista, repressora, reaccionária, para impedir a liberdade do indivíduo, a sua afirmação e a escolha da sua orientação?
Penso que as associações de defesa de animais só iriam protestar quando um toureiro, casado com o seu cavalo e com um campino ribatejano, quisesse adoptar uma ovelha a par dos gémeos chineses já adoptados anteriormente.
Etiquetas: Ironias
20.1.09
Excelente Electra na Gulbenkian
Foster esteve atormentado e envolvente na música sublime de Strauss e, sem ser quadrado, deixou respirar os cantores e usou o rubato como elemento dramático de grande efeito. A orquestra esteve perfeita, acabando alguns ataques (muito evidente no ponto em que trompas e fagotes andaram descoordenados) por serem os únicos pontos, minúsculos aliás, que me deixaram descontente...
Devo dizer que a Electra de Polaski foi de cortar a respiração, a voz de Polaski, tal como a sua portadora, tem rugas. É evidente que sim, mas isso apenas dá mais força, carácter, nobreza e dramatismo à sua construção, simplesmente assombrosa, da heroína trágica. Não perceber isso é estar a milhas do sentido do drama e não ter a menor sensibilidade.
Li uma crítica no "O Público" onde se "crucifica a cantora de quinta feira passada. Eu, que assisti na segunda, dia 19 de Janeiro de 2009, pressuponho que: ou houve uma transição de cento e oitenta graus, algo difícil de entender, ou que quem critica não percebe nada do assunto. Ele há coisas que devem ser objectivas, precisas, que devem corresponder ao que se passa. Outras serão subjectivas. Os critérios subjectivos, não podem nem devem fazer submergir uma crítica. Ler este "crítico", Pedro Boléo, louvar cantores abomináveis que têm passado no S. Carlos (sobretudo no consulado hermenêutico e do sucedâneo na direcção artística) e "massacrar" uma grande senhora como Polaski, parece-me, no mínimo, estranho. Tenho pena de não ter escutado na quinta feira passada para perceber se existiu uma tão grande metamorfose...
De qualquer modo, devo dizer que Electra na Gulbenkian foi um acontecimento de grande nível.
Nota sobre indumentárias: Foster aparece de roupão preto, ou robe de chambre, ou algo assim, amarrotado. Não tem o menor brio na indumentária, e no meu entender, dando um péssimo exemplo aos músicos. Os músicos, por seu turno, usam os mais variados tipos de sapato, uns de vernis, outros de pala, muitos de atacador, solas de borracha, alguns com ar vetusto e pouco limpo. Alguns músicos nem usam cinta nem colete branco e o cinto de cabedal aparece sob as banhas entre a camisa e as calças. As senhoras usam e abusam de calças de mau corte e os penteados são simplesmente nefastos para uma percepção estética da arte de olhos abertos... A visão da Orquestra Gulbenkian é quase a imagem do apocalipse; desordenada, sem brio no traje e sem disciplina na aparência. Basta ver a Filarmónica de Viena ou de Berlim para se perceber a diferença. A própria Sinfonia Varsóvia, uma orquestra de dimensão igual à Gulbenkian, apresenta todos os seus músicos com os sapatinhos polidos. Peço que pelo menos os senhores músicos, se não tratam do penteado ou nem sabem como se deve usar a casaca, pelo menos usem sapatos decentes para enfrentar um palco.
Etiquetas: Crítica aos críticos, Crítica de Concertos, Crítica de Ópera, Foster, Gulbenkian, Orquestra Gulbenkian
14.1.09
Policarpo e os casamentos com muçulmanos
A intolerância e o fanatismo, o relegar das mulheres para segundo plano, e tratá-las como seres de segunda, é prática habitual e tenho-a presenciado em muitos países de maioria de muçulmanos que tenho visitado. Até na "laica" Turquia o papel da mulher é secundário. Se fizermos o passeio da Palestina para "ocidentalizada" Jordânia e acabarmos na medieval Arábia Saudita as coisas vão de mal a pior.
Uma coisa é conversão informada e convicta (só se mete naquilo quem quer), outra é tentar manter as convicções num casamento inter-religioso. D. José Policarpo tem toda a razão, estamos aqui a considerar factos e não ilusões, estamos a falar do muçulmano praticante médio e não de um ideal, quase inexistente, de tolerância que não existe na prática muçulmana.
E eu li o Corão. O que acentua tudo o que escrevo acima...
12.1.09
Comunicado à Imprensa - MISO
Comunicado à Imprensa
Parede, 10 de Janeiro de 2009
No seguimento do incidente de ontem no Palácio Foz, dia 09-01-2009, que marcou a apresentação dos programas Inov-Art e Inov-Mundus com a interpelação de Paula de Castro Guimarães (Paula Azguime) ao Senhor Primeiro Ministro Eng. José Sócrates, e perante o comunicado da DgArtes que tenta desviar a atenção da questão levantada relativa à internacionalização dos artistas portugueses com mais de 35 anos de idade; a Miso Music Portugal / Centro de Informação da Música Portuguesa, entidade da qual Paula Azguime é presidente e directora. vem esclarecer o seguinte:
Em relação às declarações do Ministro da Cultura José António Pinto Ribeiro:
Ficamos perplexos, abismados e revoltados perante a afirmação do Ministro da Cultura, que garante haver dinheiro para todos artistas: "Não há nenhuma falta de apoio para todos os artistas que existem em Portugal, é uma questão de se dirigirem aos locais próprios".
Esta afirmação demonstra um total desconhecimento da realidade dos artistas e das estruturas artísticas em Portugal e até dos próprios organismos do Ministério da Cultura! Os montantes dos apoios previstos para os concursos plurianuais e anuais da DgArtes não se coadunam, como todos sabemos e até a própria DgArtes reconhece, nem com o número de entidades susceptíveis, pela sua qualidade, originalidade e mais valia para o estado de serem apoiadas, nem com as necessidades das actividades em Portugal; muito menos com uma internacionalização consistente dessas mesmas actividades. Solicitamos pois como consequência directa das declarações do Senhor Ministro da Cultura que não havendo nenhuma falta de apoio para todos os artistas, e por conseguinte nenhuma falta de verbas, que sejam feitos de imediato diligências no sentido de se pôr de pé um programa especifico, tão longamente aguardado e reivindicado de apoio e incentivos à internacionalização dos artistas portugueses com mais de 35 anos. Sugerimos também que haja um aumento efectivo de verbas nos apoios às estruturas para que efectivamente ao contrário do que se verifica nos montantes anunciados para os apoios 2009-2012, elas possam também fazer um trabalho sólido de internacionalização dos seus projectos e dos artistas que promovem.
Afirmou também o Ministro da Cultura José António Pinto Ribeiro nunca ter sido contactado pela Miso Music Portugal para um pedido de audiência. Para que não restem dúvidas sobre a veracidade da solicitação da Miso Music Portugal juntamos em anexo documento com o pedido de audiência enviado a dia 9 de Maio de 2008, reiterado a 06 de Junho de 2008, a 22 de Junho de 2008, e ainda a 16 de Julho de 2008 (ver documentos anexos).
Foi-nos concedida uma reunião com o Dr. Luís Chaby Vaz, Chefe do Gabinete do Ministro da Cultura a 28 de Julho de 2008 que nos informou não haver dinheiro nem em 2008 nem em 2009, nem a possibilidade de nenhum enquadramento específico para o Centro de Informação da Música Portuguesa cuja principal função é a preservação e promoção do património musical português e a efectiva internacionalização dos compositores portugueses e das suas obras, numa perspectiva de circulação e de afirmação da música portuguesa no mundo. (ver documento anexo).
Em relação às declarações do Director-Geral das Artes Jorge Barreto Xavier:
As afirmações do Dr. Jorge Barreto Xavier só vêm comprovar a posição privilegiada da Miso Music Portugal / Centro de Informação da Música Portuguesa para em pleno direito se pronunciar quanto aos problemas efectivos das artes em Portugal e em particular à sua internacionalização. Como disse o Dr. Jorge Barreto Xavier "a Miso Music Portugal é a entidade mais apoiada na área da música", recebeu anualmente entre 2005 e 2008, 200 mil euros e é uma entidade que se tem vindo a internacionalizar e que por isso conhece bem os obstáculos e as dificuldades para essa internacionalização e as lacunas profundas das politicas para a cultura nessa matéria e correspondentes insuficiências financeiras.
É com profundo conhecimento da situação que os artistas vivem em Portugal, que reafirmamos a necessidade imperiosa de que seja implementado um programa especifico com meios financeiros adequados para a internacionalização dos artistas portugueses de todas as idades, e especialmente aqueles com mais de 35 anos com trabalho afirmado e reconhecido. Para estes nunca houve em Portugal até esta data, como acontece em todos os países culturalmente civilizados, nenhum programa efectivo de apoio à internacionalização.
Quanto ao apoio anual de 200.000¤ atribuído por concurso à Miso Music Portugal entre 2005 e 2008, deve referir-se que o mesmo já não está em vigor, tendo terminado a 31 de Dezembro de 2008. A Miso Music Portugal fez no final de Novembro tal como muitas outras estruturas artísticas profissionais e independentes, uma candidatura aos próximos apoios plurianuais. Todavia o tardio lançamento dos concursos e o anúncio da decisão dos mesmos que só será conhecida em Abril, vêm interromper em todo o país e para todas as estruturas artísticas os apoios financeiros por um período de pelo menos 4 meses, deixando as estruturas numa situação de completa indefinição e de precariedade não justificável, assim todas as actividades culturais independentes parceiras até final de 2008 da DgArtes. Contrariando-se assim o principio de estabilidade e de necessidade de consolidação, dinamização, e desenvolvimento sustentado das actividades artísticas previsto e estipulado pelo decreto lei Decreto-Lei n.º 196/2008 de 6 de Outubro.
Pela Miso Music Portugal
Paula de Castro Guimarães (Paula Azguime) e Miguel Azguime
Todas as informações sobre a Miso Music Portugal em http://www.misomusic.com e sobre o Centro de Informação da Música Portuguesa em http://www.mic.pt
--
Paula de Castro Guimarães
directora executiva e curadoria
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